Chegou de mudança em uma cidadezinha do interior, uma família bem humilde, pai, mãe e filha. Ora vejam: moreninha, sorriso branco, pele doce. Aquele cheiro de alfazema nas mãos, que só de encostar na gente já apaixona. No cabelo, uma tiara. Na verdade, tiara simples. Mas tudo o que aquela menina usava tinha um valor maior. A tiara mais parecia uma coroa naqueles longos cabelos rubros.
Chegou ali e encantou. As pessoas da cidadezinha ficam bobas com o jeitinho encantador da jovem, ela é diferente, tem uma coisa a mais. Conta-se que, certa vez, um menino meio bobo veio puxar assunto, dizendo: "belo dia o que está!", no que ela disse: "meu Pai que fez!", no que perguntou o moço: "quem é seu pai?" e ela respondeu: "O Rei dos reis" Ora vejam a fé da menina, ora vejam de onde ela brilha: a luz que dela reluz não vem de fatores outros senão da certeza de saber que seu Pai a tudo faz.
O tempo passa e as pessoas a cada dia ficam mais apaixonadas pelo jeito da menina, e acaba que começam a chamá-la de Princesa. Pronto, pegou o apelido. Título, não sei. Só sei que a menina fazia jus ao que a ela titularam. “Essa menina é uma princesa”; “jeito meigo e delicado como o de uma princesa”, as pessoas diziam.
E Talvez, as pessoas chamavam a menina de Princesa por ela ser filha do Rei dos reis, ou pelo seu modo de viver ou pelo jeito carinhoso de tratar as pessoas. Não se sabe bem, mas ela encantava e brilhava e, na verdade, todos esperavam o dia em que o Rei viria para buscá-la, pois esta era uma história que ela contava com tanta certeza que as pessoas estavam já acreditando. Ela dizia com frequência: "O Rei está voltando!".
Por Cleison Brugger e Lorena Freitas
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7 de janeiro de 2013
26 de dezembro de 2012
Tem aquele amigo...
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Tem aquele amigo
Que faz coisas surpreendentes
Até mesmo
Quando estamos doentes
Tem aquele amigo
Que nos faz sorrir
Em muitos momentos
Até se divertir
Tem aquele amigo
Que vem no nosso ombro chorar
E nós, claro
Estamos aqui para ajudar
Tem aquele amigo
Que é inesquecível
Cada momento junto
É incrível
Tem aquele amigo
Que é mais chegado que um irmão
E tem todo o direito
De morar no nosso coração
Que faz coisas surpreendentes
Até mesmo
Quando estamos doentes
Tem aquele amigo
Que nos faz sorrir
Em muitos momentos
Até se divertir
Tem aquele amigo
Que vem no nosso ombro chorar
E nós, claro
Estamos aqui para ajudar
Tem aquele amigo
Que é inesquecível
Cada momento junto
É incrível
Tem aquele amigo
Que é mais chegado que um irmão
E tem todo o direito
De morar no nosso coração
Por Lorena Freitas
3 de outubro de 2011
Girassóis.
Quando girassóis murcham, é sinal de que o Sol não veio. É sinal de que não comtemplaremos sua plenitude.
*
O aspecto dos girássois, em dias escuros, não é tão belo quando se tem o calor do Sol. Sua aparência é cálida, inexpressiva... eles murcham porque o dia não lhe trará boas surpresas. Os pássaros não cantarão a melodia com tanta alegria, como o fazem ao contemplar o resplendor do Sol.
Quando não se tem o Sol, os girassóis, murchos, viram a cara, olham para o oriente, escondem-se do lugar donde o Sol se põe. Muito embora, de vez em quando, olhem para cima nos montes, no afã de receber algum tipo de atenção daquele que não veio.
Por todo o dia eles sentem a brisa, e em dias nublados sentem da chuva, mas não podem sentir a alegria de olhar para Sol e contemplar sua majestade. O Sol para eles é refrigério, é proteção, é carinho, é cuidado, é atenção! Existe uma reciprocidade única! Por todo o dia, eles se entreolham, e no cair da tarde, existe a mais sublime forma de despedida, findando assim, um dia repleto de afetos.
Mas a esperança dos girassóis que, por estarem sós, também estão murchos, é o dia seguinte. Nem o sereno da noite, muito menos o orvalho dos horários extensos podem acabar com a esperança dos girassóis de ver raiar mais uma vez o Sol. E no começo do dia, sei, com muita alegria, os girassóis despertam. E olha, quem lá está! o Sol, ele que alegria dá aos girassóis que outrora estavam murchos.
E assim, no raiar de um novo dia, começa, com muita euforia, os pássaros a cantar a melodia de um cântico novo. E os girassóis, que murchos antes estavam, agora, alegres pelo nascer da manhã, recebem, mais uma vez, afeto e carinho, daquele que para eles, é o quadrado perfeito da criação: O SOL.
BRUGGER, Cleison
*
O aspecto dos girássois, em dias escuros, não é tão belo quando se tem o calor do Sol. Sua aparência é cálida, inexpressiva... eles murcham porque o dia não lhe trará boas surpresas. Os pássaros não cantarão a melodia com tanta alegria, como o fazem ao contemplar o resplendor do Sol.
Quando não se tem o Sol, os girassóis, murchos, viram a cara, olham para o oriente, escondem-se do lugar donde o Sol se põe. Muito embora, de vez em quando, olhem para cima nos montes, no afã de receber algum tipo de atenção daquele que não veio.
Por todo o dia eles sentem a brisa, e em dias nublados sentem da chuva, mas não podem sentir a alegria de olhar para Sol e contemplar sua majestade. O Sol para eles é refrigério, é proteção, é carinho, é cuidado, é atenção! Existe uma reciprocidade única! Por todo o dia, eles se entreolham, e no cair da tarde, existe a mais sublime forma de despedida, findando assim, um dia repleto de afetos.
Mas a esperança dos girassóis que, por estarem sós, também estão murchos, é o dia seguinte. Nem o sereno da noite, muito menos o orvalho dos horários extensos podem acabar com a esperança dos girassóis de ver raiar mais uma vez o Sol. E no começo do dia, sei, com muita alegria, os girassóis despertam. E olha, quem lá está! o Sol, ele que alegria dá aos girassóis que outrora estavam murchos.
E assim, no raiar de um novo dia, começa, com muita euforia, os pássaros a cantar a melodia de um cântico novo. E os girassóis, que murchos antes estavam, agora, alegres pelo nascer da manhã, recebem, mais uma vez, afeto e carinho, daquele que para eles, é o quadrado perfeito da criação: O SOL.
BRUGGER, Cleison
22 de setembro de 2011
Idílio.
Noites vêm, noites vão e ela não sai das minhas lembranças. Ela quem, pergunta o inchirido? quem eu (ou tu) achar por bem ser. De fato, nem tudo o quero, possuo, como nem tudo o que possuo, desejo, de fato, ter. Há coisas que precisamos ter e não temos nem um bucado, nem uma gota sequer pra sanar a sede, mas aquilo a qual não precisamos ter, isso temos a flux.
Sim, afirmo que preciso de amor. Leia bem, preciso de amor, não um amor. Não quero dizer com isso que fiz o voto do celibato, mas quero asseverar que de nada adianta ter um amor, se não tenho o amor. Como amar sem amor? seria como saciar a sede numa fonte que há muito secou-se. Aliás, nesses tempos de estranheza quanto ao tipo humano e incertezas do quem é quem, há tantos corações onde a fonte do amor se secou, que para os tais amar é somente (e apenas) um verbo transitivo direto.
Na verdade, preciso de um amor idílico, bucólico, juvenil, suave. idílico no dar e ter de volta, bucólico por me fazer lembrar das flores, juvenil por me fazer saber o que é a vida e suave, por me fazer ouvir, mesmo sem ter musica, sustenidos e bemóis. Quero amar e saber o porquê estou amando. Quero reciprocidade, dar e receber, numa mesma sintonia. Quero um amor poético, que me faça suspirar, devanear, sonhar, fantasiar. Dançar uma melodia, bailando, eu comigo mesmo, ou eu com a morena que mora na rua das margaridas, ou eu com a chuva do veraneio. Não importa com quem. O que importa é estar acompanhado.
Portanto, pode-se perguntar: "queres se enamorar?" talvez. "Queres uma paixão?" aceito, certamente. Mas não quero me enamorar e ter uma paixão apenas com alguém, mas com alguns e também com coisas. Quero rir da e com a vida. Quero escrever poesia olhando a chuva; quero sentir uma nortada e saber que sou querido; quero esquecer-me de mim e lembrar que, se eu der amor, serei retribuido, quer com abraços, quer com carinhos, quer com um simplório sorriso.
BRUGGER, Cleison.
Sim, afirmo que preciso de amor. Leia bem, preciso de amor, não um amor. Não quero dizer com isso que fiz o voto do celibato, mas quero asseverar que de nada adianta ter um amor, se não tenho o amor. Como amar sem amor? seria como saciar a sede numa fonte que há muito secou-se. Aliás, nesses tempos de estranheza quanto ao tipo humano e incertezas do quem é quem, há tantos corações onde a fonte do amor se secou, que para os tais amar é somente (e apenas) um verbo transitivo direto.
Na verdade, preciso de um amor idílico, bucólico, juvenil, suave. idílico no dar e ter de volta, bucólico por me fazer lembrar das flores, juvenil por me fazer saber o que é a vida e suave, por me fazer ouvir, mesmo sem ter musica, sustenidos e bemóis. Quero amar e saber o porquê estou amando. Quero reciprocidade, dar e receber, numa mesma sintonia. Quero um amor poético, que me faça suspirar, devanear, sonhar, fantasiar. Dançar uma melodia, bailando, eu comigo mesmo, ou eu com a morena que mora na rua das margaridas, ou eu com a chuva do veraneio. Não importa com quem. O que importa é estar acompanhado.
Portanto, pode-se perguntar: "queres se enamorar?" talvez. "Queres uma paixão?" aceito, certamente. Mas não quero me enamorar e ter uma paixão apenas com alguém, mas com alguns e também com coisas. Quero rir da e com a vida. Quero escrever poesia olhando a chuva; quero sentir uma nortada e saber que sou querido; quero esquecer-me de mim e lembrar que, se eu der amor, serei retribuido, quer com abraços, quer com carinhos, quer com um simplório sorriso.
BRUGGER, Cleison.
9 de setembro de 2011
Prazer e ódio.
Satânico é o meu pensamento a teu respeito e ardente é o meu desejo de
apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me
fizeste ontem.
A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando,
sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu
corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença,
aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos
lugares. Eu adormeci.
Hoje, quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós
ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar. Quando
chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas
as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do
teu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti, mosquito desgraçado*!
apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me
fizeste ontem.
A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando,
sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu
corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença,
aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos
lugares. Eu adormeci.
Hoje, quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós
ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar. Quando
chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas
as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do
teu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti, mosquito desgraçado*!
Carlos Drummond de Andrade
15 de julho de 2011
Constatações.
Finalmente, agora é dia; entretanto, a noite já vem.
Finalmente, o Sol raiou; entretanto, a escuridão virá a flux.
Finalmente, o trem chegou; entretanto, já se prepara pra partir.
Finalmente, já cresci; entretanto, ainda brincam com os meus sentimentos.
Finalmente, maduro sou; entretanto, ainda rio com frivolidades.
Finalmente, escrevo poemas; no entanto, ainda penso trivialidades.
Finalmente, não choro por coisas; entretanto, choro por gente.
Finalmente, as flores nasceram; entretanto, virão estações outras e logo morrerão.
Finalmente, a vida é boa; entretanto, a vida passa.
Finalmente, um infante nasceu; entretanto, amanhã é velório de algum alguém.
Finalmente, certo momentos me inspiram; entretanto, certos detalhes me preocupam.
Finalmente, sou um homem dado à integridade; entretanto, surrupio beijos e abraços.
Finalmente, preciso terminar o poema; para tanto, preciso saber como fazer.
Entretanto, se pararmos pra pensar, veremos que o poema tem tantos "entretantos" que os "finalmentes" só viriam pra somar.
Finalmente, o Sol raiou; entretanto, a escuridão virá a flux.
Finalmente, o trem chegou; entretanto, já se prepara pra partir.
Finalmente, já cresci; entretanto, ainda brincam com os meus sentimentos.
Finalmente, maduro sou; entretanto, ainda rio com frivolidades.
Finalmente, escrevo poemas; no entanto, ainda penso trivialidades.
Finalmente, não choro por coisas; entretanto, choro por gente.
Finalmente, as flores nasceram; entretanto, virão estações outras e logo morrerão.
Finalmente, a vida é boa; entretanto, a vida passa.
Finalmente, um infante nasceu; entretanto, amanhã é velório de algum alguém.
Finalmente, certo momentos me inspiram; entretanto, certos detalhes me preocupam.
Finalmente, sou um homem dado à integridade; entretanto, surrupio beijos e abraços.
Finalmente, preciso terminar o poema; para tanto, preciso saber como fazer.
Entretanto, se pararmos pra pensar, veremos que o poema tem tantos "entretantos" que os "finalmentes" só viriam pra somar.
BRUGGER, Cleison.
7 de julho de 2011
Conúbio.
Chove lá fora. Aqui dentro, eu e meu amor. O frio, embora intenso, não consegue arrefecer o calor que o lembrar dela me traz. Nesta lembrança, penso voltar a ser infante e viver à puerícia. Ir lá fora, pegar tua mão e dançar um scherzo qualquer. Tu e teu vestido de bolinhas coloridas. Eu e minha vergonha de mostrar quem sou pra ti. Tu e tua pessoa introspecta. Eu e minha angústia de querer saber quem és.
Sabendo que queres ir comigo, te faço um convite um tanto atrevido: "Queres ver a chuva que lá fora cai?". Sem hesitar, sei que aceitarias. Não és moça de desfeitas. Aceitarias movida pelo teu ultraje com cara de ingenuidade.
Já lá fora sentindo da chuva, te convido pra uma dança qualquer. Embora eu saiba que não sabes dançar, te faço lembrar que ainda somos crianças e não precisamos ser mestres naquilo que fazemos. Querer fazer já basta.
Na intimidade da dança, a parte mais íntima do corpo é a cintura, e como é bom saber que só eu - e mais ninguém - é quem pode pegar nestas tuas finuras sem ter de ti um olhar rude. Sei que posso, pois me amas. Sei que devo, pois me queres. Sei que gostas, pois me aceitas. Neste ato, te tenho como minha. Minha posse. Meu latifúndio. Minha rainha.
Já tentando dançar qualquer coisa, tu percebes que o que há são mais do que passos de dança. Tu sabes que te quero - e quem disse que tu não me queres? sei que o teu coração está vibrante, teu sangue ferve e tua alma gélida está. Será a chuva? certamente que não. Até a chuva parou pra olhar a bela cena que se dá naquele quintal, no bairro Jardim Botânico, juntos aos pés de acerola, laranja e manacá.
Num impulso, volto à vida. Deixo a infância com suas lembranças para trás. Sei que não te tenho como antes, com vestidos de bolinhas - variados - ou com aquela face rosada, não obstante, olho para o lado e te tenho aqui, comigo, sorrindo, me amando. Te quis quando criança pra poder te ter agora. Agora que te tenho, o que restam são lembranças.
Cleison Brugger.
Sabendo que queres ir comigo, te faço um convite um tanto atrevido: "Queres ver a chuva que lá fora cai?". Sem hesitar, sei que aceitarias. Não és moça de desfeitas. Aceitarias movida pelo teu ultraje com cara de ingenuidade.
Já lá fora sentindo da chuva, te convido pra uma dança qualquer. Embora eu saiba que não sabes dançar, te faço lembrar que ainda somos crianças e não precisamos ser mestres naquilo que fazemos. Querer fazer já basta.
Na intimidade da dança, a parte mais íntima do corpo é a cintura, e como é bom saber que só eu - e mais ninguém - é quem pode pegar nestas tuas finuras sem ter de ti um olhar rude. Sei que posso, pois me amas. Sei que devo, pois me queres. Sei que gostas, pois me aceitas. Neste ato, te tenho como minha. Minha posse. Meu latifúndio. Minha rainha.
Já tentando dançar qualquer coisa, tu percebes que o que há são mais do que passos de dança. Tu sabes que te quero - e quem disse que tu não me queres? sei que o teu coração está vibrante, teu sangue ferve e tua alma gélida está. Será a chuva? certamente que não. Até a chuva parou pra olhar a bela cena que se dá naquele quintal, no bairro Jardim Botânico, juntos aos pés de acerola, laranja e manacá.
Num impulso, volto à vida. Deixo a infância com suas lembranças para trás. Sei que não te tenho como antes, com vestidos de bolinhas - variados - ou com aquela face rosada, não obstante, olho para o lado e te tenho aqui, comigo, sorrindo, me amando. Te quis quando criança pra poder te ter agora. Agora que te tenho, o que restam são lembranças.
Cleison Brugger.
30 de junho de 2011
Conselhos de um velho a um jovem caboclo.
Conselhos de um velho, num dia qualquer de calor, sentado na soleira, olhando o sertão. Embora aparência cálida, tinha fala de fidalgo e pose de sabedor de tudo.
"- Cresce, que é o melhor para ti. Sê tu dono de si próprio.
Deixa de depender daqueles que por ti pouco fazem.
Faze as coisas por ti mesmo. Anda com teus próprios pés.
Apodera-te da manha do ser e do ter.
Corre atrás do que queres, do que podes, do que te é permitido (ou não)
Pára de rir com o que é fútil. Passa a sorrir um sorriso atrevido.
Pára de olhar para outros pra ver como faz.
Vai, faz o que sabes para que outros parem para te ver.
Sê tu senhor de si mesmo. Dono de teu nariz.
Te arruma um amor, de preferência, morena bem apanhada.
Logo após, vê se te rumas para o que nunca deu vergonha a ninguém.
Vês que ninguém te engane. Já és homem, moço feito.
Não te apanhes chorando se não sabes viver o agora.
Lembra-te que a vida há de te ensinar, a murros e pontapés.
Saibas que ninguém aprende uma vez pra sempre.
É repetindo os fatos e relembrando como faz, que tomamos consciência quanto ao certo e errado.
Vê se te apegas a uma nega. Não renegue tua raça!
E jamais te esqueças de onde vieste (se te esqueceres, tua pele te mostra)
Sempre te lembres das parideiras, do João-de-Barro nas Palmeiras, do fruto dos cajueiros.
Lembra-te de quando eras mancebo, mas vive a vida que agora tens.
Quem vive de lembrança vê a vida passar, tal qual Sabiá-coleira rumando ao ninho.
Mas sei do touro bravo que pulsa no teu peito.
Não folgues com a injustiça que existe em cada esquina.
Não deixe que te levem a caminhos de novidades.
Vive tua vida de moço do mato.
Mata a mata da vida difícil.
Cobre teu peito da relva da selva.
Cobre teu rosto da singeleza do sertão."
Cleison Brugger
"- Cresce, que é o melhor para ti. Sê tu dono de si próprio.
Deixa de depender daqueles que por ti pouco fazem.
Faze as coisas por ti mesmo. Anda com teus próprios pés.
*
Deixa de lado Zeferina, que mainha já dorme na rede. Apodera-te da manha do ser e do ter.
Corre atrás do que queres, do que podes, do que te é permitido (ou não)
Pára de rir com o que é fútil. Passa a sorrir um sorriso atrevido.
*
Toma postura de homem. Alarga teus ombros. Amadurece teus olhos.Pára de olhar para outros pra ver como faz.
Vai, faz o que sabes para que outros parem para te ver.
Sê tu senhor de si mesmo. Dono de teu nariz.
*
Deixa de espreitar meninices. Já cresceste! és homem feito!Te arruma um amor, de preferência, morena bem apanhada.
Logo após, vê se te rumas para o que nunca deu vergonha a ninguém.
*
Toma consciência do que éras e do que passaste a ser.Vês que ninguém te engane. Já és homem, moço feito.
Não te apanhes chorando se não sabes viver o agora.
Lembra-te que a vida há de te ensinar, a murros e pontapés.
Saibas que ninguém aprende uma vez pra sempre.
É repetindo os fatos e relembrando como faz, que tomamos consciência quanto ao certo e errado.
*
Vê se te rumas pra frente, nunca pra trás. És gente, não bicho!Vê se te apegas a uma nega. Não renegue tua raça!
E jamais te esqueças de onde vieste (se te esqueceres, tua pele te mostra)
Sempre te lembres das parideiras, do João-de-Barro nas Palmeiras, do fruto dos cajueiros.
Lembra-te de quando eras mancebo, mas vive a vida que agora tens.
Quem vive de lembrança vê a vida passar, tal qual Sabiá-coleira rumando ao ninho.
*
És moço bom, pacato homem.Mas sei do touro bravo que pulsa no teu peito.
Não folgues com a injustiça que existe em cada esquina.
Não deixe que te levem a caminhos de novidades.
*
Resolve-te a ti mesmo, caboclo.Vive tua vida de moço do mato.
Mata a mata da vida difícil.
Cobre teu peito da relva da selva.
Cobre teu rosto da singeleza do sertão."
Cleison Brugger
21 de junho de 2011
Antes do Sol nascer.
Antes do Sol nascer, quero ler poemas vários, para tentar dar alento ao que, em mim, pulsa forte. Antes do Sol nascer, quero sentir um vento fresco, e assim tomar doses de paixão e suspiros, antes da luz chegar. Antes do Sol nascer, preciso ler Baudelaire, cantar com Buarque, sorrir com as flores e sentir com Augusto dos Anjos. Antes do Sol nascer, preciso de alguém aqui - sorrindo, amando, sentindo - sem ter horas para ir, nem momentos para adeus. Antes do Sol nascer, quero ouvir uma canção, que na insistência das notas altas, arrefeça-me a vida. Antes do Sol nascer, quero ver o céu, deslumbrante em seu breu, arquitetado pelas mãos de um Ser superior. Antes do Sol nascer, quero tirar-lhe o véu, desnudar tua face e maravilhar-me à tua formosa pele. Antes do Sol nascer, quero você; Sim, quero você, antes do Sol nascer.
Cleison Brugger.
Cleison Brugger.
13 de junho de 2011
A mulher da minha vida.
Não era um impasse. Era apenas um incômodo, um mal-estar. Eu a queria, mas não dava para tê-la. Então, resolvemos ser amigos. Mas a amizade limita os afetos (pelo menos, os que eu queria dar). Os abraços e beijos devem ser comportados. As conversas não podem ser provocantes. A língua limita-se ao falar. Eu queria mais, não apenas um amor efêmero. Definitivamente, não era assim que eu a queria tratar. Na verdade, queria tê-la para mim, como minha, sem restrições, educações ou gentilezas. Se fosse para ter algo do tipo, que fosse romantismo. Pegar na mão, sentir-me dela. Trocar olhares, sentir-me belo à vista.
Contudo, o conúbio soava estranho. Era tão bom estar com ela, mas aquela sensação não parecia oficial. Algo dizia que o encanto brevemente acabaria. E delicadamente acabou. Sem delongas, sem chateações. Acabou porque acabou. Quisemos que acabasse. Não havia razão para continuar. Verdade é que não era uma farsa, mas também não era totalmente verdade. O momento era bom, mas era fugaz. Embora belo, não enchia barriga. Queríamos algo, digamos, mais psicodélico. Perfumado, tal qual manacá-de-cheiro.
E então, num agradável colóquio, despedimo-nos um do outro. Tenuamente, passamos de enamorados para amigos novamente. Na verdade, nada tinha acabado, pois nem mesmo havia começado. Seu abraço, depois disto, foi o mesmo que recebi quando me apaixonei. Sinceramente, ela era a moça mais doce e impressionante que eu havia conhecido. Num beijo de despedida, retirei-me para casa, torcendo para que não houvesse perdido a mulher da minha vida.
Cleison Brugger
Contudo, o conúbio soava estranho. Era tão bom estar com ela, mas aquela sensação não parecia oficial. Algo dizia que o encanto brevemente acabaria. E delicadamente acabou. Sem delongas, sem chateações. Acabou porque acabou. Quisemos que acabasse. Não havia razão para continuar. Verdade é que não era uma farsa, mas também não era totalmente verdade. O momento era bom, mas era fugaz. Embora belo, não enchia barriga. Queríamos algo, digamos, mais psicodélico. Perfumado, tal qual manacá-de-cheiro.
E então, num agradável colóquio, despedimo-nos um do outro. Tenuamente, passamos de enamorados para amigos novamente. Na verdade, nada tinha acabado, pois nem mesmo havia começado. Seu abraço, depois disto, foi o mesmo que recebi quando me apaixonei. Sinceramente, ela era a moça mais doce e impressionante que eu havia conhecido. Num beijo de despedida, retirei-me para casa, torcendo para que não houvesse perdido a mulher da minha vida.
Cleison Brugger
6 de junho de 2011
Uma tal Frida.
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| Frida Maria Strandberg Vingren |
Frida Vingren, embora injustiçada e sofredora, merece lugar na história e lembrança nestes 100 anos. Compôs 07 hinos para a Harpa Cristã e traduziu mais 16. Com a vinda da família Vingren para o Rio de Janeiro em 1924, Frida Vingren mostrou a que veio: pregou, liderou, cantou, tocou órgão e violão, escreveu, costurou, compôs, traduziu, redigiu, ensinou, cuidou da enfermidade do esposo, teve de recuperar-se da malária, esgotamento físico, palpitações no coração e da perda de sua filhinha Gunvor, dirigiu cultos em praças e no presídio e foi, ativamente, uma das líderes da Assembleia em Deus em São Cristóvão-RJ, na ausência do esposo. É incalculável o número de almas que Frida ganhou para seu Senhor. Porém, o machismo nordestino e dos missionários suecos abafou o seu chamado e, por ser mulher, foi posta de lado. Aos 49 anos, no ano de 1940, morreu na Suécia vítima de um câncer, e os portais sempiternos a receberam, guiando-a para o lar celeste. Com tudo isto, hoje relembramos teu chamado e história, e damos valor ao trabalho que ajudaste a edificar, Frida Strandberg Vingren.
*
Tua aparência frágil me encantou. Confesso nunca ter olhado muito bem. Agora esses teus olhos enigmáticos me fitam. És enfermeira, eu sei, sabes traduzir dores e anseios. Não é isso que me prende tanto a atenção agora, essa tua profissão. É que sendo bem sucedida como dizem, chegando a ser chefe de um hospital, largaste tudo e vieste pra cá, depois de uma guerra... Certamente é uma ocasião em que há muitos feridos para cuidar. Eras tão jovem, apenas 26 anos. Não pensavas em casar, ter filhos, família aí mesmo? Quem sabe, te projetar profissionalmente?
O que te cativou? Seriam os trópicos? Sei que em teu País o inverno é pesado... Não foi a floresta, pois aí a tinhas. Não foram os peixes. Aí tens a deliciosa truta e o inigualável salmão. Não foi o trem, rangendo em seus trilhos, pois também os há de onde vieste. Certamente não foi o desenvolvimento. Teu país produzia tecnologia quando o restante da Europa ainda engatinhava. Agora mesmo estamos querendo os caças produzidos aí! Custo a acreditar que algo subjetivo te movia, quando Petrus, aquele visionário impulsionador de jovens talentos, apenas te admitiu para estudares a Palavra de Deus. Sendo mulher e solteira as coisas ficariam um tanto difíceis. Aliás, quando decidiste vir ao Brasil, sabias que aqui não eras bem vinda. Apesar do provável apoio dos missionários de tua denominação, especialmente teu futuro marido, havia o machismo enrustido dos nordestinos. Era o prenúncio desta briga insana e mesquinha que hoje nos divide, insultando tua memória. Só restaria dinheiro e sucesso, mas a história mostra que apesar de carregares o piano, uma expressão criada por um sociológo brasileiro, para descrever tuas agruras com um marido doente, pouca ou nenhuma láurea recebeste. Então, o que seria?
Imagino-te a implorar a Deus por um destino, abrasada pelo Espírito Santo. Tuas lágrimas e tuas orações tomaram forma quando conheceste Gunnar, então tudo se aclarou. Era o destino unindo a vontade de Deus com uma obra de tal dimensão jamais igualada por quaisquer outros missionários. Ainda que fosse somente por ele, nada te diminuiria. Ao contrário dos bons partidos líderes de hoje, filhinhos de papais-pastores, aquele homem doente e pobre nada teria a oferecer a não ser amor, cuidado, compreensão e carinho. Ele não estava construindo uma empresa, estava embrenhado em matas, falando uma nova mensagem a estranhos. Nada tinhas a herdar, como de fato, não herdastes nenhum tesouro neste mundo.
Dizem que eras incansável. Editando jornais, pregando em praça pública, compondo, traduzindo, escrevendo, costurando, falavas dois idiomas. Ouvi dizer que fazias cultos na Casa de Detenção. Ora, se hoje já é dificil a um homem pregar num presídio... Eras corajosa, constato. Ecos da profissão, talvez. Na enfermagem se lida com nada menos que a morte e o sofrimento. Leio relatos assim:
Em março de 1920, irmã Frida foi acometida de malária, sofrendo com terríveis ataques de febre. Durante dois meses e meio, a luta pela vida foi tamanha, a ponto do marido pedir que Deus a curasse ou a levasse para si. Nesse período, a igreja em Belém se colocou em oração e jejum, esperando de Deus um milagre, que ocorreu em 3 de junho de 1920. Depois de seu restabelecimento, ela enfrentou o problema de saúde do marido.
Imagino-te uma esguia figura de vidro diante dos ventos tenebrosos do começo. Em nada lembras as suntuosas madames de hoje em dia, preocupadas com festas e poder, que presentes ganharão nos aniversários ou onde jantar no fim de semana. Sabias que cantoras evangélicas como tu, hoje são chamadas de divas!? Nos tornamos chiques demais para teus padrões. Roupas caras não eram teu forte, inferimos das poucas fotos que nos restam.
Volto a olhar-te. Estes teus olhos não são lascivos como o de algumas obreiras. São olhos ensimesmados. Ciosos de um mundo a ganhar. Olham para um horizonte tão vasto cuja dimensão somente a eternidade vai revelar. Como se dissessem: Não nos decepcionem, sofremos muito por vocês. Ou quem sabe: Não nos olhem com piedade, façam sua parte da história, sem olhar pra trás. Não sei bem como interpretá-los, há tantas possibilidades, não é mesmo? Talvez estavas apenas olhando pelos teus, para que saíssem bem na foto. As mulheres tem esse dom.
Reverencio-te, comparando-te às muitas nobres senhoras de nossas igrejas. Aquelas que eram dez, vinte, cinquenta e depois multiplicaram-se por mil. Não vieste apenas fazer turismo, disfarçado de missão, estavas a serviço de um Deus que nunca te desamparou. Estavas certa quando largastes tudo. Do alto dos teus 49 anos padeceste tua dose final de humanidade. Sempre jovem para tudo o mais, até mesmo para dizer adeus. Como afirmas em um dos teus hinos: Se Cristo comigo vai, eu irei...
Somos fruto do incansável trabalho das tuas mãos, que Deus não é injusto para esquecer. Certamente ouviremos teu nome quando estivermos diante de seu trono. Então poderemos te conhecer pessoalmente, quem sabe te abraçar ou, melhor ainda, todos assembleianos brasileiros estaremos juntos e poderemos retribuir teu olhar. Ao menos a massa simples não vai te envergonhar.
2 de junho de 2011
La vita è bella
Vamos sair para o campo, dar a mão às raparigas em flor e dançar com elas ao Sol*. Vamos à floresta, ver as folhas que o outono envelheceu, anunciando o fim do veraneio. Vamos à rua, pisar descalços na terra que a chuva encharcou, e arriscar alguns passos de tango. Vamos ao baile, àquele que acontece na praça, e mostrar-lhes o charme da nossa raça. Vai, põe teu vestido vermelho de cetim e vem! Vem, dá-me tua mão enquanto cai chuva. Vai, deixa molhar teu rosto moreno. Vem, que te farei suspirar poesia. Vai, dança na chuva e solta os cabelos. Vem, dá-me do calor do teu verão. Vai, dança a dança da tua tribo. Vem, deixe-me tocar tua pele ianomani. Permita-me te amar ao som deste scherzo, para que então, chegada a primavera, possa eu te colher a primeira flor, agarrar-te e ter-te como minha. Vai, não deixe que morra o que arde em nós dois. Vem, vem dar vida àquilo que parece singelo, mas é fogo e paixão. Vem, que prometo pedir aos teus pais tua mão. Vem, que te tiro de casa e te levo comigo no meu alazão. Vem, que sairemos ao campo, sem rumo ou destino, sobrevivendo somente de amores. Sim, quero ter-te e olhar-te e amar-te. Despertar pela manhã e despertar-te, e olhando tua beleza, desejando os teus lábios, poder dizer: Buongiorno, principessa.
Cleison Brugger
*Texto de Érico Veríssimo no conto: "As mãos de meu filho".
Cleison Brugger
*Texto de Érico Veríssimo no conto: "As mãos de meu filho".
29 de maio de 2011
Acalma-te.
Eu quero o bem, quero o mal. Quero o denso, quero o breve. Quero aqui e acolá. Quero o mundo. Quero tudo. Quero o todo. "Acalma-te", pede a mãe. "Pés no chão!", insiste a mãe. "Não faz barulho!", implora a mãe. Ah, mãe! Se tu soubesses o sorriso que eu carrego bem dentro e o vento que me carrega bem alto, quem sabe tu desistias de me propor alguma calmaria. Ah, mãe! Se, certa vez, sentiste o peso em minhas costas, não questionaria o propósito dessas minhas asas. Uma vez no alto, vale a pena esse medo de cair.
Elisa Clavery
Elisa Clavery
26 de maio de 2011
Coração.
Um miscigenismo de sentimentos. Uma desvairada vontade de acabar com o encanto. Calada está a boca enquanto grita o coração.
Como ter ciúmes de quem nem se sabe o nome? como se enamorar por alguém que quase não se vê? Ora, e o coração do homem algum dia foi terra de alguém? pode a anatomia dissecá-lo em mil partes e, ainda assim, não o entenderá.
Coração bobo, que de repente fica estranhamente aquecido e, como por um lapso, enlouquecidamente enciumado. Coração besta, que no sentir prazer alheio, pensa logo que é paixão. Ora, coração, nem conheces a moça, mas somente no trocar de palavras com um outro alguém, te cravas ódio. Tem tenência, coração, pois não podes amar latifúndios que já possui senhor feudal.
Sossega-te, coração, que nada é para hoje. Acalma-te, solidão, que sentimentos vão e vem. Não te enganes, coração, que gostar não é amar. Toma tenência, coração, pois embora os sentimentos fortes te pareçam, como a água do riacho logo se irá e nem te lembrarás. Acorda, coração, que tua mocidade anda a te espreitar pelas frestas, perguntando até quando perderás tempo oportuno. Desapega-te, coração, pois a moça que vês tem marido e aliança. Traiçoeiro coração, que sempre te atém àquilo que não é teu. Ah, como eu queria amar a mulher do meu amor e dar alento a este que esperneia tal qual louco desvairado, meu coração.
Cleison Brugger
Como ter ciúmes de quem nem se sabe o nome? como se enamorar por alguém que quase não se vê? Ora, e o coração do homem algum dia foi terra de alguém? pode a anatomia dissecá-lo em mil partes e, ainda assim, não o entenderá.
Coração bobo, que de repente fica estranhamente aquecido e, como por um lapso, enlouquecidamente enciumado. Coração besta, que no sentir prazer alheio, pensa logo que é paixão. Ora, coração, nem conheces a moça, mas somente no trocar de palavras com um outro alguém, te cravas ódio. Tem tenência, coração, pois não podes amar latifúndios que já possui senhor feudal.
Sossega-te, coração, que nada é para hoje. Acalma-te, solidão, que sentimentos vão e vem. Não te enganes, coração, que gostar não é amar. Toma tenência, coração, pois embora os sentimentos fortes te pareçam, como a água do riacho logo se irá e nem te lembrarás. Acorda, coração, que tua mocidade anda a te espreitar pelas frestas, perguntando até quando perderás tempo oportuno. Desapega-te, coração, pois a moça que vês tem marido e aliança. Traiçoeiro coração, que sempre te atém àquilo que não é teu. Ah, como eu queria amar a mulher do meu amor e dar alento a este que esperneia tal qual louco desvairado, meu coração.
Cleison Brugger
21 de maio de 2011
Teatro grego.
Fidelidade juramos à alegria e à felicidade, mesmo que para tê-las, precisemos buscar lá longe. Mas da lamúria, esta pantera, distância não nos é suficiente. Não sabes que ninguém vive de sorrisos? há momentos onde o ressoar do instrumento é profundamente melindroso.
Serei fiel aos meus sentimentos, sofrimentos e lamentos. Quando a alma está pálida, não há razão para mascarar o rosto. Não sou ator de teatro grego. Não quero cera em minha face, para mostrar o que nela não há. Quero que o passante contemple minha dor e, se não quiser pranteá-la, ao menos a respeite. Quero que as chagas que no interior está, se externem. Sim, não quero sorrir quando estou a sentir dores. Sou uma só gente; ou rio, ou choro.
E se, no caminhar do caminho, eu chegar a beira do rio, epitáfio quero que se escreva. Não amigos, não parentes, não amores. Se alguém deve escrever o que no meu túmulo se lerá, esse alguém é o passante. Que ele escreva do que viu, e que seja sincero no que irá transcrever. Que reproduza: "estava cheio de amargura, e esta tal o levou a ingrata morte, mas hipocrisia não se viu em nenhum de seus momentos. Se riu, riu, mas se chorou, foi porque cessou o riso".
Cleison Brugger
Serei fiel aos meus sentimentos, sofrimentos e lamentos. Quando a alma está pálida, não há razão para mascarar o rosto. Não sou ator de teatro grego. Não quero cera em minha face, para mostrar o que nela não há. Quero que o passante contemple minha dor e, se não quiser pranteá-la, ao menos a respeite. Quero que as chagas que no interior está, se externem. Sim, não quero sorrir quando estou a sentir dores. Sou uma só gente; ou rio, ou choro.
E se, no caminhar do caminho, eu chegar a beira do rio, epitáfio quero que se escreva. Não amigos, não parentes, não amores. Se alguém deve escrever o que no meu túmulo se lerá, esse alguém é o passante. Que ele escreva do que viu, e que seja sincero no que irá transcrever. Que reproduza: "estava cheio de amargura, e esta tal o levou a ingrata morte, mas hipocrisia não se viu em nenhum de seus momentos. Se riu, riu, mas se chorou, foi porque cessou o riso".
Cleison Brugger
14 de maio de 2011
Sonhar e viver.
Sonhei. Sonhei, mas não um sonho. Lembro que, no sonho, queria pensar estar sonhando, mas no sonho que sonhei, tudo aquilo não era um sonho. No sonho, fechava os olhos e abria, tentanto des-sonhar o sonho, mas o sonho que sonhei quis que eu continuasse sonhando. Lembro que chorava no sonho. Com razão chorava, enquanto sonhava algo que parecia não ser um sonho. Até que despertei.
Entre viver e sonhar, tudo depende de como se sonha e de como se vive. Se mal, não há prazer, se bem, logo despertaremos.
Cleison Brugger.
*
Despertei, querendo que fosse um sonho. Despertei melindroso, com a alma gélida e com o rosto flácido. Ao levantar, quis deitar. Abri os olhos e logo os fechei, querendo sair da realidade em que estava, tentando re-sonhar o sonho que não sonhei; mas a vida que vivo não me permite viver de sonhos. Não acordei em choro, mas chorei enquanto acordado. Com razão chorava, quando vivia aquilo que embora eu quisésse que fosse um sonho, era a mais pura realidade. *
A diferença entre o sonho que sonhei e a vida que vivo, é que, ao contrário do sonho que sonhei, a vida é uma constante. A diferença é que, vez ou outra, sonho estar em Pasárgada, enquanto na vida que vivo, vivo diuturnamente na motononia. A diferença é que, no sonho que sonhei, embora tenha sonhado com meus temores, acordei, enquanto na vida que vivo, ou vivo a vida, ou vivo um sonho que não se quer sonhar.Entre viver e sonhar, tudo depende de como se sonha e de como se vive. Se mal, não há prazer, se bem, logo despertaremos.
Cleison Brugger.
Profundamente.
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Manuel Bandeira, in "Antologia Poética"
10 de maio de 2011
O poeta do castelo (1959)
Um documentário sobre o poeta Manuel Bandeira. Versos de Manuel Bandeira, lidos pelo poeta, acompanham e transfiguram os gestos banais de sua rotina em seu pequeno apartamento no centro do Rio; a modéstia do seu lar, a solidão, o encontro provocado por um telefonema, o passeio matinal pelas ruas de seu bairro.
9 de maio de 2011
Necessidade.
É preciso casar João,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.
Carlos Drummond de Andrade, in 'Sentimento do Mundo'
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.
Carlos Drummond de Andrade, in 'Sentimento do Mundo'
1 de maio de 2011
Ansiedade.
Ansiedade. Quando vem, vem carregada de ferocidade e nenhum resquício de amabilidade. Vem e tira o sono, vem e tira a cama, vem e tira a calma, vem e nos adorna de incoerência. Traz com ela utopias, na maioria das vezes manipuladas para o (des)prazer e o (in)sucesso. Quem não cai em suas garras, certamente não sabe o que é viver neste tempo secularizado e pós-moderno, regido pelas ansiedades. Vivemos ansiosos, e não temos culpa disto. Vivemos deste jeito porque frequentemente abrimos mão do "de sempre" e do comumente aceito para abraçarmos o novo, o inusitado, o interessante. O novo leva a ansiedade, nunca o velho. Eu não despertarei minha ansiedade para amanhã, se souber que farei as mesmas coisas que fiz ontem e hoje. Mas se no tal amanhã houver algo novo e eu souber que ele vem, ansioso estarei, pernoitarei de olhos fixos na realidade, até que venha. Posso perder uma boa noite de sono e ter dor de cabeça no dia seguinte, mas se o dia chegar, o motivo da minha ansiedade virá a mim e a tal irá dormir, até que apareça um novo motivo para me fazer ficar ansioso. Perderei cabelo, sono, unhas, lucidez, mas não a esperança. Prefiro ficar acordado pela ansiedade do que ir dormir desacreditado. Já diz o ditado: "há males, que vem para bem".
Cleison Brugger
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